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Com 19 anos eu arrumei meu primeiro estágio em criação. Antes dos 21 já era um redator de carteira assinada, com indícios de que minha carreira seria promissora. Aos 23, minha pasta era um desastre, eu ganhava um salário decente e produzia muito tecnicamente, mas bem pouco criativamente. Resultado: criei um grande gap entre meu portfólio e meu salário, o que me tornava pouco interessante para o mercado.

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Nessas horas, um pouco de autocrítica faz bem. Eu vi que meu problema era a famosa zona de conforto. Como as oportunidades não caem do céu, eu trabalhei quietinho durante um ano inteiro, juntei grana o suficiente pra comprar um carro zero e pedi demissão. Não sem antes tirar visto americano e me matricular em dois cursos em duas escolas dos Estados Unidos: New York University e School of Visual Arts.

Muitos podem dizer que foi uma atitude extrema e que o Brasil tem ótimas escolas criativas. Concordo. Mas eu juntei isso com a vontade de ter uma experiência de viver uns meses fora do país e, além do aprendizado técnico, tirei lições culturais valiosas. É isso que eu gostaria de compartilhar aqui.

1. No hard feelings

O brasileiro é um povo simpático. Às vezes, a gente mede as palavras até demais. E às vezes a gente se ofende muito com a sinceridade. Como lá a maioria das minhas aulas seguiu o modelo de colar um trampo na parede pra todo mundo julgar, no começo eu senti um pequeno choque com essa franqueza: se alguém achava que sua ideia era uma bosta, falava sem pensar. E sem ressentimentos. É uma coisa meio idiota, mas temos que estar preparados para dar e ouvir opiniões sinceras, já que isso nos ajuda a ser profissionais melhores.

2. Do whatever it takes

Pegar um master degree e depois se matricular em um curso totalmente diferente. Largar uma carreira de 10 anos para aprender outro ofício. Perder um emprego em meio a crise e investir o dinheiro que resta em educação. Parece loucura, mas a cultura americana é mais agressiva e desapegada. Eles arriscam tudo sem perder tempo: se há necessidade de mudar, abrir mão de diploma, cargo e salário, os caras simplesmente fazem. Às vezes, é preciso dar um passo atrás para dar dois na frente. Se você chegar a este ponto, tenha maturidade para identificar o momento e traçar um plano.

3. Have Fun!

Chegamos à história que fiquei devendo para vocês no texto passado (se não leu, tá aqui). Fui para Nova York com 5 anos de carreira pra fazer cursos com pessoas de vários perfis. Os cursos que me matriculei estão em uma categoria chamada continuing education: são cursos sem diploma, mas que valem créditos para os alunos que estão cursando a universidade. Ou seja, eu fui lá fazer sem compromisso, mas se escolhesse uma graduação nessas escolas meu desempenho contaria como crédito.

Enfim, me matriculei em dois cursos antes de sair do Brasil e, chegando lá, me matriculei em um terceiro por empolgação. Errei. Acabei cheio de tarefas e com pouco foco em cada uma. Com essa sobrecarga, raramente aproveitava o sol do verão novaiorquino. Além disso, meu desempenho não tava no meu grau de satisfação: enquanto gente que nunca pisou em uma agência apresentava ideias bem legais, eu levava coisas medianas. Eu estava tentando muito. Até demais.

Em uma das aulas, colei alguns trabalhos na parede e não me destaquei novamente. Como na semana anterior tinha rolado feriado, eu havia ficado duas semanas trabalhando naquelas ideias. Pra piorar, a tarefa da próxima aula seria de um cliente que, pessoalmente, eu acho bem escroto. Ali naquele momento eu duvidei que fosse um criativo de verdade. Passaram-se mil coisas pela minha cabeça. Inclusive, pensei que tinha desperdiçado muita grana investindo em uma carreira que não era pra mim.

A aula seguiu, e o professor mostrou uma concorrência que tinha feito com sua equipe. Além de ótimo mestre, o cara é Diretor de Criação em uma das grandes agências de NY. Juro, o job deles me deixou indignado: era uma campanha pra soro de nariz, mas era muito legal. Subversiva. Ele transformou o ato de desentupir a cavidade nasal em um movimento pela sua liberdade de se livrar tudo que incomoda você. Depois de apresentar para nós, arrancando risos da sala toda, ele disse a frase que foi um soco na minha cara: “We had a lot of fun working on it”.

Mais tarde, veio um estalo na minha cabeça. Eu estava me esforçando demais.

Não só lá na Big Apple. Os últimos meses da minha carreira tinham sido daquele jeito, com uma preocupação imensa em entregar e sem me divertir. Parece mentira, mas na semana seguinte eu comecei a pensar menos em “o quão boa minha ideia é” e mais em “como eu deixo isso de um jeito que eu gosto”.

Acabou que as ideias que levei pro cliente que achava escroto (e continuo achando) arrancaram elogios da sala toda, mesmo depois de alguns alunos protestarem reclamando de ter feito uma campanha pra um cliente tão zoado. Não foi só isso. Meus trabalhos daquela semana nem voltaram para a minha pasta, já que o professor os sequestrou para seu hall of fame, em que ele separava as melhores entregas para mostrar às turmas futuras.

Bom, depois dessa aventura lá fora, voltei para o Brasil com a cabeça fervendo. Cheguei em uma quinta, com entrevista marcada para sexta e na outra terça já tinha um emprego. Meses depois, fui trabalhar em uma das agências que era um dos meus sonhos. Já se passaram quase 4 anos desde que voltei, e nesse tempo vivi altos e baixos.

O que eu posso dizer é que esses 3 aprendizados, desde que voltei, me ajudaram muito a me desenvolver e me guiaram até onde estou hoje. Considero que, atualmente, vivo um dos melhores momentos da minha carreira.

Esse texto é uma colaboração de Enzo Sunahara, Copywriter atualmente na VML. Caso você também queira colaborar com conteúdos, entre em contato pelo e-mail tutano@trampos.co.

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