“Hoje podemos optar por outros modelos de trabalho”

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Durante 15 anos em agências publicitárias do Brasil e Portugal, Thais Fabris desenvolveu e conheceu as entranhas deste mercado. Como copywriter e diretora criativa, vivenciou uma época em que era prestigioso atuar em grandes agências. Mas a internet mudou tudo. E hoje ela está livre para escolher os projetos que quer realizar, descobriu novas relações com o trabalho.

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Thais também viu de perto a realidade do mercado e, como muitas pessoas, se incomodou. Não ficou só no textão e resolveu agir junto com outras colegas. Dois importantes números fizeram a publicitária sair da comodidade do trabalho em uma grande agência para abrir seu negócio.

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Apenas 10% dos criativos dentro das agências brasileiras são mulheres

65|10 é uma consultoria criativa para orientar marcas e agências através dos novos papéis das mulheres na sociedade. Nesta entrevista, ela conta sobre as alegrias e os desafios de largar a vida de agência para empreender, e fala sobre sua visão do mercado. Confira:

1. Você saiu de uma grande agência para atuar com a sua consultoria. Como foi essa transição?

Foi difícil e deu medo. A 65|10 decolou rápido e, das três sócias, eu era a que teria condição de me dedicar mais naquele momento. Mas não foi fácil deixar de lado o salário garantido no fim do mês, o cargo bacana em uma agência de que eu gostava, a comodidade de ter equipe grande. Foi um trabalho de deixar o ego de lado e descobrir quem eu sou sem o salário, o cargo e a equipe. Um ano depois, posso dizer que valeu a pena. Repensei toda minha relação com trabalho a partir disso: hoje ele tem um papel menos central na minha vida. É uma coisa que me dá prazer, mas não me define.

2. Qual é o maior desafio de ser empreendedora? E a grande vantagem?

O maior desafio é ter que desempenhar funções que nunca tinha experimentado: sou atendimento, financeiro, jurídico, produção. É muito legal quando aprendo algo novo, mas muito chato quando aprender algo novo envolve passar uma tarde inteira no banco. A grande vantagem é ser dona do meu tempo. Tenho o privilégio de escolher os projetos em que vou colocar minha energia e quando vou fazer isso. Hoje muitas vezes trabalho em final de semana, outras vezes vou andar de bicicleta numa segunda de manhã ou estou na piscina numa quarta à tarde. Quem decide isso sou eu e é ótimo.

3. Como é seu ambiente de trabalho favorito? O que não pode faltar?

Apesar de hoje trabalhar em casa, gosto muito de gente. Pra mim o que não pode faltar é gente legal para trocar uma ideia. Também não pode faltar café. No home office, eu alio a vontade de ver gente com a necessidade de cafeína marcando cafés com as pessoas quase todos os dias. Também passo o dia todo em contato com as minhas sócias e amigas na internet.

4. Você segue alguma rotina? Alguma dica/ritual para o processo criativo fluir?

Minha rotina não é muito estável, depende bastante da agenda. Sempre que dá, eu procuro ter espaços de respiro nessa agenda. É onde a criatividade flui. Faço muitas coisas a pé e de bicicleta, sou muito da rua. Me mover pela cidade estimula minha mente. As melhores ideias me aparecem nessas caminhadas e em viagens. Quando a agenda está mais corrida, reservo alguns minutos do dia para meditar, nem que seja no ônibus ou no táxi.

5. Como tem sido o trabalho do projeto 65|10? Vocês têm encontrado abertura para o diálogo em empresas e em agências?

Nós trabalhamos em três pilares: educação (com workshops e palestras), consultoria (brainstorms, reports, geração de insights e análise de risco) e projetos especiais. Ano passado foi o ano da educação, o mercado precisava entender o que mudou no comportamento feminino e por que as mensagens de sempre já não surtiam os mesmos efeitos.

Esse ano estamos com mais força na consultoria, atuando com marcas como Itaú e Nestlé, e nos projetos especiais, como o Ladies, Wine & Design, série de encontros de mulheres designers em parceria com Niche e Twitter. O mercado está bem aberto para o diálogo, porque o mercado é feito de pessoas e a igualdade de gêneros é a causa de muita gente. Isso abre portas pra gente.

6. Quais diferenças você enxerga no mercado publicitário de quando você ingressou em agências para os dias atuais?

Quando eu comecei – e isso era fim da década de 90, começo dos anos 2000 – imperava uma lógica da escassez: eram poucas agências legais, poucas vagas, muita gente querendo trabalhar. Eu ouvia muito “faz o que te pedem, porque se você não fizer vai ter alguém que topa fazer e ainda vai cobrar menos que você”. Depois a economia ficou mais aquecida e a internet veio para mudar tudo. Hoje já não tem tanto hype em torno das grandes agências e as pessoas podem optar por outros modelos de trabalho. Temos mais opções. Mesmo com a crise econômica, eu não acho que esse cenário vá voltar a ser como era.

7. Na rotina, muitas profissionais mulheres têm dificuldades de confrontar ideias machistas. Qual é a sua dica para ajudar nessa mudança?

Eu sou da diplomacia. Acredito que conversas francas e honestas são transformadoras. Se algo te incomoda, vale puxar a pessoa e conversar de coração aberto. Explicar com paciência e bons argumentos, se colocar no lugar do outro e ajudar ele a ver as coisas pelo seu ponto de vista. Mas, se não funcionar, pode fazer um escândalo.

8. A publicidade precisa de mais…

Empatia.

9. Uma descoberta que mudou algo em sua vida.

Teve três coisas que mudaram a minha vida e continuam mudando: análise, ioga e espiritualidade. A análise me trouxe uma conexão comigo e um auto-conhecimento que me permitiram fazer escolhas mais verdadeiras com quem eu sou. A ioga conectou meu corpo com a minha mente. E a espiritualidade me traz coragem e uma ligação com algo maior que eu.

10. Uma dica para quem está começando no mercado de trabalho.

Tão importante quanto aprender a profissão é aprender quem você é. Dedique tempo a se conhecer, busque saber quais são os seus valores, o que você gosta de fazer, o que é importante para você. Assim você vai tomar decisões e seguir caminhos que vão te fazer mais feliz. E ser feliz é mais importante que ganhar dinheiro, vai por mim! Bonus track: acredite no poder do café. Peça pras pessoas que você admira tomarem um café com você. Na cara-de-pau mesmo, sempre funcionou comigo. Esses cafés são os que vão te manter mais acordada na vida.

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