As redes sociais estão substituindo o Jornalismo?

As redes sociais estão substituindo o jornalismo?

Uma seleção de especialistas na área respondeu a uma nova pergunta de Judy Dempsey sobre os desafios que estão moldando o jornalismo ao redor do mundo: a polêmica relação entre jornalismo e redes sociais, o impacto que o surgimento das redes provocou no jornalismo e se elas podem coexisitir, ou se as redes sociais estão substituindo o jornalismo.

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Dennis Abbott | Diretor de Comunicação na Burson-Marsteller Brussels

A resposta curta é sim e não. As redes sociais vêm transformando a forma que os consumidores recebem informação. Elas têm, cada vez mais, aumentado as formas de escolha para acessar diferentes tipos de notícias, desde acontecimentos recentes a fofocas. O grupo Brussels não é uma exceção a essa tendência. O Twitter é a segunda fonte de informações que mais influencia os tomadores de decisão, na frente do Economist, do Financial Times e do POLITICO, de acordo com a pesquisa sobre a mídia na União Europeia da ComRes/Burson-Marsteller de 2016.

A mídia tradicional está tendo um trabalhão tentando se adaptar à era digital. Leitores — e anunciantes —  desertaram em massa. As editoras têm visto suas receitas despencarem enquanto agregadores online saqueiam quantidades colossais de conteúdos protegidos por direitos autorais. Os jornalistas (aqueles que ainda têm emprego) estão em concorrência contra todo mundo para serem os primeiros a darem notícias de última hora. Eles não mais decidem qual é a maior história do dia. A notícia que viraliza é, muitas vezes, produzida por usuários das mídias sociais.

Apesar das mídias tradicionais e sociais formarem um casal estranho, ambas precisam uma da outra – talvez mais do que nunca. Na era pós-verdade e das notícias falsas, as pessoas estão, cada vez mais, procurando fontes confiáveis. Dos 320 milhões de usuários ativos mensalmente no Twitter, 126 milhões seguem a CNN e a BBC, a mídia mais influente em Bruxelas.

 

Tom Carver | Vice-presidente de comunicação e estratégia na Carnegie Endowment for International Peace

Não. A mídia social não é jornalismo, é um meio, como a TV ou o rádio, por onde o jornalismo viaja. Quando o professor canadense Marshall McLuhan disse que “o meio é a mensagem”, ele não quis dizer que o meio substituiu o conteúdo, mas que todo conteúdo é influenciado pelo meio em que viaja.

E é assim com a mídia social, que mudou a natureza do jornalismo. Graças à mídia social, as agências de notícias perderam o efeito da notícia de última hora pois, agora, é quase impossível para uma agência conter uma história por mais do que poucos minutos. A mídia social desencadeou uma proliferação de notícias falsas, ampliando as histórias fabricadas de um jeito que nunca tinha acontecido antes. Os algoritmos que recomendam conteúdos dificultam, ainda mais, que as audiências tenham contato com pontos de vista alternativos.

Mas, em muitos aspectos, todas essas mudanças tornaram mais valioso o bom jornalismo, não menos. A prova de que as pessoas se ligam a marcas nas quais confiam em tempos de incerteza pode ser vista no recente aumento de assinaturas do New York Times e do Washington Post. O jornalismo está mudando, mas não vai desaparecer tão cedo.

 

Jakub Janda | Chefe do Programa Kremlin Watch e Vice-diretor do Grupo de Reflexão sobre os Valores Europeus em Praga

As mídias sociais podem ser mais rápidas que o jornalismo ao relatarem notícias de última hora, mas nunca vão substituir o jornalismo. Está claro que os meios tradicionais nunca mais terão o monopólio dos fluxos de informação. Qualquer pessoa pode publicar online sobre qualquer evento. Mas isso não é jornalismo, que é essencial para as democracias.

O problema com o jornalismo atual é que aqueles que dedicam suas vidas à esta missão raramente defendem sua própria profissão. Hoje, muitas pessoas fingem serem jornalistas mas, na verdade, se escondem atrás do rótulo enquanto espalham mentiras. Jornalistas, assim como advogados e médicos, precisam levar sua profissão e sua honra a sério. Isso significa desafiar proativamente os “pseudo-jornalistas”, que sistematicamente espalham informações falsas. Associações jornalísticas, que são disfuncionais em muitos países, precisam desempenhar um papel importante. Os jornalistas precisam ficar de olho em seus colegas de profissão e cobrar agressivamente aqueles que quebrarem as regras não escritas. Em uma era de campanhas massivas de desinformação, um sólido órgão regulador das mídias é uma necessidade em todas as democracias.

Além disso, os governos europeus estão fracassando espetacularmente no financiamento de iniciativas independentes de verificação de fatos. Infelizmente, parece que a maioria deles simplesmente não se importam em proteger o debate público decente contra a desinformação.

 

Edward Lucas | Editor Sênior no Economist

A mídia social está ampliando e complementando o jornalismo, não substituindo-o. Os tweets e os compartilhamentos são a nova impressão: Para quê escrever um artigo se ninguém vai ler? Os jornalistas gostam de se gabar sobre quantos seguidores têm (por acaso eu mencionei que tenho 58.000 no Twitter?). As publicações nas mídias sociais também são a matéria-prima do jornalismo, fornecendo relatos de testemunhas oculares e pontos de vista em primeira mão (inclusive do próprio Presidente americano Donald Trump). As contas de paródia oferecem um toque bem-vindo de cor, como o brilhante @DarthPutinKGB. Relâmpagos de controvérsia que iluminam os contornos de um argumento. As funções de arquivamento também são úteis – histórias inteiras podem ser escritas sobre um tweet vergonhoso, excluído, mas que ainda está disponível como captura de tela.

O maior problema, como na Internet em geral, é saber se o que está online é verdadeiro. A função de verificação do Twitter desempenha um papel importante aqui: um tweet vindo de uma conta verificada é muito mais importante do que um que venha de uma conta que tenha um avatar padrão de um perfil novo.

 

Bruno Maçães | Sócio na Flint Global

Em grande parte, sim. Eu confio cada vez menos nos jornais impressos. Eles são muito lentos para divulgar notícias de última hora e se tornaram cada vez mais limitados em suas opiniões. Idealmente, a pessoa pode contar com o Twitter para notícias de última hora e com meios de comunicação especializados para uma análise mais profunda. O jornalismo de hoje precisa ser obsessivamente bom. Se não, será irrelevante.

 

Gianni Riotta | Membro do Conselho de Relações Exteriores

A mídia social é o novo jornalismo. Pergunte a alguém nos seus vinte-e-poucos onde essa pessoa leu a notícia e ela vai citar o Facebook, Google ou Twitter. A ideia de que há duas esferas de informação, mídia velha e mídia nova, é obsoleta. O mundo de hoje oferece um bagunçado, cheio, barulhento e partidário ecossistema de notícias, mesmo assim, nunca na história tanta informação de qualidade esteve disponível, acessível e facilmente compartilhada.

O perigo está nas fontes poluídas, nas notícias falsas, nas mentiras fornecidas pelo Estado e que são embaladas como verdade. Mark Zuckerberg, do Facebook, jura que apenas 1% do conteúdo da plataforma é falso. Ele até pode estar certo, mas isso não importa. Se eu te der uma caixa com 100 doces e prometer que apenas 1 deles está envenenado, você vai jogar a caixa inteira fora. Apesar de 1% não ser muito, se é impossível saber o que é verdade, os usuários estão condenados. Como dito pelo princípio da explosão: ex falso sequitur quodlibet – “a partir de uma contradição, qualquer coisa segue”. Então, o futuro do jornalismo é, de fato, as mídias sociais, mas se um modelo sustentável de negócios e uma referência coerente de justiça não puderem ser encontradas, as democracias estarão em risco.

 

Marietje Schaake | Vice-presidente da Delegação do Parlamento Europeu para as Relações com os Estados Unidos

Não. A imprensa livre e pluralista e o jornalismo independente são indispensáveis nas sociedades abertas. A mídia social criou uma camada adicional e uma nova dinâmica de interação e comunicação. Vivemos em tempos de abundância de informações.

Há, também, vantagens para os jornalistas, pois eles podem acessar fontes diretamente, montar perfis pessoais e aumentar seu engajamento com a audiência.

O mesmo vale para os políticos, que não mais dependem dos jornalistas para escreverem ou transmitirem suas palavras. Como resultado, a mídia social e outras novas tecnologias forçaram os jornalistas a se reinventarem. Em meio a uma riqueza de informações e opiniões, os jornalistas oferecem orientação, análise e interpretação.

É importante que os usuários enxerguem o Facebook e o Youtube como eles são: um lugar onde todo tipo de informações e opiniões são compartilhadas. Isso não significa que cada publicação é verificada, examinada ou apurada. Infelizmente, nas plataformas online, histórias infundadas ou sensacionais podem facilmente se tornar virais.

As mídias sociais criaram um novo cenário, onde as sociedades abertas têm que estar vigilantes sobre os princípios que valorizam: acesso à informação, não-discriminação, competição justa e liberdade de expressão. E estes não são, necessariamente, preservados pelas agências de propagandas. Portanto, o mundo precisa de mais jornalismo.

 

Paul Taylor | Editor na POLITICO

A mídia social está mudando profundamente a natureza do jornalismo e enfraquecendo seu modelo de negócios tradicional. A publicidade escapou da mídia impressa para o meio online à taxas muito mais baratas, privando os meios velhos da receita vital. Cada vez menos jovens estão dispostos a pagarem por notícias. Eles conseguem o que querem de graça nas mídias sociais. Todos, exceto alguns poucos nichos de mídia, enfrentam uma escassez de financiamento comercial independente, tornando-os vulneráveis a bilionários com projetos vaidosos ou com objetivos políticos. Isso significa menos empregos para os jornalistas, menos notícias internacionais e menos páginas. O correspondente internacional corre o risco de entrar em extinção. Também significa reduzir o padrão de vida de todos os jornalistas, exceto aqueles que são estrelas.

Mas a mídia social oferece um novo vetor para todas as formas de jornalismo, novas fontes como o Twitter, Facebook e Youtube; assim como o preço de entrada zero para o chamado jornalismo cidadão e a habilidade instantânea de verificar os fatos dos jornalistas e dos políticos. Os principais riscos são a falta de confiabilidade – sejam notícias internacionais falsas ou a pressa para publicar antes de verificar – e a comunicação fechada entre grupos com a mesma ideologia sem uma verificação jornalística real.

Em último caso, a esperança é que aqueles que precisam de informações confiáveis para tomarem decisões políticas ou de negócios ainda pagarão pelo jornalismo de qualidade.

 

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Ministrante
Kellen Moraes
Digital Strategist
Piauí

Publicado originalmente em [Carnegie Europe]. Adaptação por Tutano

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